Cultura

Cobertura do Museu de Arte e Arquitetura é palco de instalação de Xavier Veilhan

A cobertura do Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Belém, é palco, pela primeira vez, de uma instalação para interpelar os visitantes, desafio lançado ao artista Xavier Veilhan, que colocou uma matilha de cães no topo do edifício.

Romy and the dogs” é o título desta instalação do artista francês que foi hoje apresentada aos jornalistas, no quadro de cinco exposições que hoje são inauguradas no museu, e abrem ao público na quinta-feira.

Além desta, o MAAT apresenta obras de Jesper Just, na Galeria Oval, Carla Filipe, no Project Room, Pedro Tudela, na Sala das Caldeiras, e os seis finalistas do Prémio Novos Artistas Fundação EDP, na Central 1.

Pedro Gadanho, diretor do MAAT, disse, antes da visita, que foram duas as razões para inaugurar um tão grande número de exposições: uma delas prende-se com a realização da ARCOlisboa – Feira Internacional de Arte Contemporânea, que é hoje inaugurada oficialmente na Cordoaria Nacional.

Untitled (The Dog)“, de Xavier Veilhan, 1993. Foto: ADAGP

“Sabemos que esta é uma altura em que a ARCOlisboa atrai muito público, e é uma oportunidade para o MAAT apresentar também novas exposições, numa semana tão intensa para a arte contemporânea, na capital”, disse o diretor.

A outra razão, disse Pedro Gadanho, prende-se com a sua saída, em breve, da instituição museológica que ajudou a criar de raiz, e que deverá passar o testemunho a uma nova direção, a partir do final de junho. “Vou sair e queria anunciá-lo publicamente. Estou orgulhoso de ter contribuído para colocar o MAAT no mapa internacional da arte contemporânea”, comentou.

No topo do edifício criado pela arquiteta Amanda Levete, o museu recebe pela primeira vez uma instalação artística: um conjunto de figuras que reúne uma mulher pintada de branco, acompanhada de uma matilha de cães em lilás.

“Esta peça é muito clássica, remete para a deusa Diana da caça, mas, ao mesmo tempo, pretende ativar a nova forma de as pessoas usarem a imagem”, disse o artista no topo do edifício, onde se encontravam dezenas de turistas a fazer ‘selfies‘, com telemóveis.

Por seu turno, Pedro Gadanho disse que o desafio lançado ao artista surge na sequência da constatação de que muitas pessoas visitam a cobertura do MAAT, usada como miradouro para o rio, mas não vão ao museu. “A presença desta peça é importante para complementar o espaço, e também para interpelar os visitantes, de forma a visitarem o museu no interior”, disse.

No interior do edifício, foi também apresentada a nova instalação criada para a Sala Oval, que acolhe, até 02 de setembro, uma exposição do artista dinamarquês Jesper Just, com curadoria de Pedro Gadanho e de Irene Campolmi.

Servitudes – Circuits (Interpassivities)” usa a arquitetura expositiva como um meio que dialoga com projeções de vídeo, e, de forma performativa, altera a perceção e a fisicalidade dos espaços expositivos, obstruindo o fluxo habitual dos visitantes do Museu.

No espaço foi criada uma enorme estrutura metálica onde as obras em vídeo são suspensas e podem ser vistas através de passagens que os visitantes percorrem, projetando as suas sombras nas imagens.

jesper just
Frame de “Servitudes – Circuits (Interpassivities)“, de Jesper Just.

“As escadas do museu deixaram de existir, e os visitantes acabam por fazer uma espécie de performance no quadro da estrutura da exposição”, comentou o artista na visita.

Jesper Just usa o som, estruturas construídas e imagens em movimento para criar um espaço que reflete a condição humana na era presente, os limites do corpo e a autoconsciência.

A exposição resulta de uma colaboração com o museu Kunsthal Charlottenborg de Copenhaga, combinando e reencenando duas peças inter-relacionadas da produção recente do artista: “Servitudes”, uma vídeo instalação de oito canais apresentada pela primeira vez em 2015, no Palais Tokyo, em Paris, e “Circuits (Interpassivities)“, uma peça multimédia apresentada pela primeira vez no MAAT, num contexto de museu, depois da sua apresentação inicial na galeria do artista, na Dinamarca.

Pedro Tudela, nascido em Viseu, em 1962, apresenta a exposição “awdiˈtɔrju” – transcrição fonética da palavra auditório – na Sala das Caldeiras até 13 de outubro, com curadoria de Miguel von Hafe Pérez.

Pedro Tudela apresenta a exposição “awdiˈtɔrju“. Foto: João Nuno Pereira

Todo o espaço da Sala das Caldeiras foi transformado numa espécie de palco de uma experiência imersiva, que conjuga uma peça de som, com uma escultura e duas instalações.

O som criado pelo artista reverbera no espaço, resultado do tratamento digital de sinos diferenciados que criam uma arquitetura percetiva desenvolvida por todo o edifício.

Os visitantes vão encontrar percursos luminosos no chão, sons que ressoam no edifício e invadem a sala: “É uma instalação cujos materiais mudam a atmosfera”, disse o artista sobre aquele trabalho criado especialmente para o MAAT.

Com um percurso consolidado de mais de três décadas de trabalho, Pedro Tudela mantém uma atividade que cruza disciplinas como a pintura, o desenho, a escultura, a instalação e a fotografia.

Carla Filipe apresenta, por seu turno, no Project Room, a exposição “Amanhã não há arte”, até 09 de setembro, com curadoria de João Mourão e Luís Silva.

“Amanhã não há arte” de Carla Filipe, 2019

Trata-se de uma exposição que dá continuidade à pesquisa de Carla Filipe em torno das estratégias visuais e gráficas utilizadas pelo discurso político, em particular o cartaz reivindicativo.

O projeto apresenta um conjunto de símbolos e grafismos oriundos do discurso político pós-25 de Abril de 1974, mas retirando-lhe a plasticidade manual, tendo a artista escolhido a bandeira para dar corpo a composições gráficas complexas.

Carla Filipe recorre a imagens superficialmente despolitizadas, para se interrogar sobre o estatuto que o artista ocupa na configuração sociopolítica atual.

Na ausência da artista, um dos curadores, Luís Silva, disse que Carla Filipe “é uma defensora dos direitos dos artistas em todo o mundo, e das condições do seu trabalho”.

“O título – ‘Amanhã não há arte’ – pode parecer pessimista, mas sugere que o produtor da arte, ou seja, o artista, ainda pode ter algum poder”, acrescentou.

Entre quinta-feira e domingo – período da ARCOlisboa – o MAAT vai realizar conversas, performances e apresentações de livros.

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