Cultura Entrevista

Joana Vasconcelos: “Na intimidade, a mulher frequentemente mantém a sua função como «dona-de-casa»”

A reflexão de uma artista plástica feminina em plena era de movimentos sociais, como o #MeToo, e como a opinião pública influência o desenvolvimento do seu trabalho.

Os dois primeiros meses de 2019 tem sido preenchidos para a artista plástica portuguesa: em janeiro apresentou, em Paris, uma instalação artística nos históricos armazéns Le Bon Marché: “Simone” – a sua nova “Valquíria” branca com 35 metros de comprimento; e em fevereiro inaugurou, também em Paris, uma nova obra de arte pública permanente: “Coeur de Paris” – um enorme coração vermelho com 11 metros de altura.

Ao The Panorama News, Joana Vasconcelos fala sobre a sua ligação à cidade luz e reflete sobre como é ser uma artista plástica feminina em plena era de movimentos sociais, como o #MeToo. Para além disso, comenta sobre o papel dos artistas atualmente e que não faz as suas obras com o objetivo de satisfazer o público.

A sua exposição “I’m Your Mirror”, que esteve recentemente no Museo Guggenheim de Bilbao e que foi vista por mais de 650.000 pessoas ao longo dos seus 5 meses de duração, tornou-se na quarta exposição mais visitada na história do museu. A mesma exposição chegou agora ao Museu de Serralves, no Porto, e ficará patente até 24 de junho de 2019.

Paris é uma cidade que tem um lugar especial no seu coração?
Sem dúvida. Nasci em Paris (em 1971) devido ao exílio político dos meus pais e foi lá que vivi até regressarmos todos a Portugal, quatro dias após a Revolução dos Cravos – a tempo do meu pai (fotojornalista) registar o primeiro 1º de Maio no nosso país. Ao longo da minha vida, mantive uma forte ligação com a cidade de Paris, até porque parte da minha família lá permaneceu. Paralelamente a isto, quando regressámos a Portugal, estudei no Liceu Francês, o que consolidou a minha fluência na língua. A minha carreira profissional levou-me a expor bastantes vezes em Paris (e por todo o país), o que me permitiu fortalecer ainda mais a ligação que tenho com a cidade. É sempre uma felicidade voltar à capital francesa.

O making-of de “Simone”. Foto: Luís Vasconcelos/Cortesia Unidade Infinita Projectos

Como surgiu o convite pelo Le Bon Marché?
O convite surgiu a propósito de um projecto que tem apenas quatro anos, chamado “Carte Blanche”. A propósito do «mês branco» (como intitulado pelo fundador do que é o mais antigo grande armazém do mundo) – o mês dedicado aos saldos, posterior ao furor do Natal -, foi criado este projecto que já contou com intervenções de outros grandes artistas da contemporaneidade como Ai Weiwei, Chiharu Shiota e Leandro Erlich. Assim, o desafio lançado foi que criasse uma peça site-specific e a única condição imposta foi que fosse de cor branca. Pensei imediatamente na série “Valquírias”, que já ando a desenvolver há quase 15 anos. São inspiradas na mitologia nórdica, onde as deusas sobrevoavam os campos de batalha, resgatando e ascendendo os guerreiros mortos em combate. Partindo deste conceito, o que eu faço é criar as minhas próprias “Valquírias” que invadem o espaço com formas orgânicas e bolbosas compostas por têxteis e que preenchem as áreas «desocupadas» pela arquitetura. No caso desta “Valquíria”, o mais importante para mim foi incorporar as icónicas escadas rolantes do Le Bon Marché e ligá-las à minha peça, de forma a que a obra e o espaço comunicassem o mais possível entre si e também com o visitante que percorre as escadas. A composição de luz que acompanha o corpo da Valquíria foi programada por forma a evocar as criaturas aquáticas, como as medusas, que têm um brilho muito próprio. O meu objetivo foi trazer ao Le Bon Marché uma figura de outro mundo que, embora de natureza barroca no que toca sua à ornamentação, fosse ao mesmo tempo futurística e até alien. No fundo, o meu maior desejo, é que esta peça traga às pessoas um sentimento de deslumbramento e fascínio, como se de uma Deusa se tratasse.

A sua nova peça chama-se “Simone”. Os nomes femininos são uma constante no seu trabalho. Porquê?
Geralmente, intitulo as minhas “Valquírias” segundo nomes de mulheres que marcaram a diferença ao longo da história, e esta peça não foi exceção: Simone é uma homenagem a duas poderosas heroínas francesas que apaixonada e inteligentemente lutaram não só pelos direitos das mulheres como pelos direitos humanos. Coincidentemente, são duas mulheres homónimas: Simone de Beauvoir e Simone Weil.

“Simone”, em exposição no Le Bon Marché, em Paris. Foto: Gabriel de la Chapelle/Cortesia Le Bon Marché

Como é ser uma artista feminina em plena era de movimentos sociais como o #MeToo?
É ser reflexo do que se está a passar hoje na nossa sociedade. Os artistas acarretam uma importante responsabilidade: a de pensar o mundo que nos rodeia e de dar outros modos de ver que contribuam para o alargamento da nossa perceção e conhecimento do mesmo. É normal que me debruce sobre esta temática visto, sendo mulher, ser um assunto que me toca e com o qual lido diretamente. O nosso género condiciona a nossa forma de olhar e pensar o mundo – tal como as nossas origens, educação, viagens, experiências, por isso a minha perspetiva estará sempre ligada ao meu género… Eu sou mulher, logo parece-me natural que essa condição se materialize de alguma forma no meu trabalho. Por exemplo, quando fiz a peça Marilyn (2009), debrucei-me claramente sobre a condição da mulher contemporânea, perante a vida íntima e doméstica versus a vida pública e social. Na intimidade, a mulher frequentemente mantém a sua função como «dona-de-casa», enquanto perante o mundo exterior o seu desempenho social responde a certas exigências de elegância e de beleza. No entanto, na minha obra, tanto se encontram panelas e sapatos, como garrafas de vinho e carros. De qualquer forma, embora o meu trabalho discorra também sobre os papéis do género na sociedade contemporânea, interessa-me mais a vida como um todo. A reflexão sobre os direitos humanos – sejam das mulheres, das minorias étnicas, das crianças, etc. – é uma questão transversal porque é um tema que me preocupa. Sou contra a discriminação social, seja ela qual for.

De que forma é que a opinião pública influência o desenvolvimento do seu trabalho?
O protagonismo e popularidade que atingi são-me atribuídos pelo público. É algo que existe enquanto o público assim o entender, mas não sinto necessidade «de o satisfazer». Um artista cria por ter uma enorme necessidade intrínseca de refletir sobre algo e de se expressar. Fico naturalmente satisfeita quando o feedback é positivo, mas aquilo que me move e preocupa é continuar a fazer bem o meu trabalho. Encaro o papel do artista como o de responsável pela representação da «tribo» a que pertence. O artista é, no fundo, aquele que regista o comportamento da sociedade em que vive e, portanto, tem uma enorme responsabilidade. Daqui a 100 anos quando se estudar o nosso tempo, vão-se estudar as nossas obras para se entender a nossa sociedade. É isto que acontece quando, por exemplo, estudamos a Guerra Civil de Espanha e se associa de imediato a Guernica do Picasso. É nesta missão em que estou focada.

Joana Vasconcelos durante o processo de criação de “Simone”. Foto: Luís Vasconcelos/Cortesia Unidade Infinita Projectos

Onde vai buscar a inspiração para as suas obras?
Sou movida por uma necessidade de refletir sobre a realidade, de comunicar e de levantar questões, e, sobretudo, pela vontade de viver. A minha principal fonte de inspiração é a vida: os símbolos, os objetos de que nos rodeamos e os comportamentos das sociedades ao longo dos tempos. O que é transversal no meu trabalho é o reapresentar e subverter de tudo isto, de forma a gerar novos discursos e novos olhares sobre a realidade. O meu trabalho apropria, subverte e responde ao que existe em nosso redor. Descontextualizo os objetos de um determinado ambiente e contextualizo-os num outro espaço e tempo, subvertendo o seu significado e ampliando assim o seu campo de interpretações. O familiar torna-se em algo de novo. O que me interessa acima de tudo é gerar discursos através da criação de um confronto e diálogo entre culturas. Para tal, exploro as dicotomias artesanal/industrial, privado/público, tradição/modernidade, cultura popular/cultura erudita, entre muitas outras, jogando com estas aparentes oposições.

Quais são os seus planos para o futuro?
Outro projeto que está neste momento em produção é uma piscina «não-convencional» para a Jupiter Artland, em Edimburgo. Terá o formato irregular de um «splash» e os seus desenhos são inspirados na minha carta astral. No total, esta peça será composta por mais de 11.000 azulejos e terá o nome de “Gateway”. Para além destes, outro projeto que estou agora a desenvolver consistirá num colossal pavilhão de quatro andares com forma de bolo de noiva, no qual poderemos entrar e celebrar cerimónias. No seu centro terá uma cúpula e dois lances de escadas que nos levarão até ao seu topo, permitindo-nos tornar-nos no casal de noivos que habitualmente vemos nestes bolos.

“Coeur de Paris”, na Porte de Clignancourt, em Paris. Foto: Joséphine Brueder/Ville de Paris

Algum deles tem paragem em Portugal?
Desde 2013, com a exposição individual no Palácio Nacional da Ajuda  – que se tornou na exposição temporária mais vista do país – que não expunha a solo em Portugal. Depois de Bilbau, é bastante interessante ver como “I’m Your Mirror” se comporta e se expressa no espaço que me foi concedido em Serralves. No total, são cerca de 30 peças sendo que no interior do Museu estão expostas essencialmente as mesmas obras que constituíram a exposição em Bilbau. As exposições diferenciam-se pelo facto do Museu de Serralves ser envolvido por um maravilhoso parque, o qual possibilita a exposição de obras exteriores. No Parque de Serralves estão pela primeira vez reunidas várias peças de exterior, explorando esta outra dimensão da minha obra.

0 comments on “Joana Vasconcelos: “Na intimidade, a mulher frequentemente mantém a sua função como «dona-de-casa»”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s