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“A Netflix vai passar a estar presente nos Óscares por direito próprio”

O jornalista de cinema Mário Augusto analisa a influência das plataformas de "streaming" e a relevância dos Óscares nos dias de hoje.

Apesar de ser a cerimónia de cinema por excelência, os Óscares tem atravessado algumas crises de audiência ao longo dos anos, não conseguindo apelar às gerações mais jovens. E atualmente, esta crise tem-se agravado com a chegada das plataformas de streaming, como a Netflix e a Amazon.

Este ano, a Netflix conseguiu a sua primeira nomeação para a categoria de Melhor Filme com “Roma”, de Alfonso Cuarón, que segundo o jornalista de cinema Mário Augusto, ao The Panorama News, se ganhar vai mudar “o paradigma de produção e distribuição de cinema” conferindo-lhe um selo de credibilidade para “passar a estar presente nos Óscares”.

No Reino Unido, nos BAFTA, a longa-metragem de Cuarón ganhou em quatro categorias, incluindo a de Melhor Filme. Após a vitória, uma das maiores cadeias de distribuição de cinema, a Vue, ameaçou que “não iria conseguir continuar a apoiar” a Academia britânica se esta não “reconsiderasse os seus critérios de elegibilidade”.

“Acreditamos que os BAFTA não cumpriram os seus altos padrões habituais este ano ao escolher endossar e promover um filme ‘feito para a TV’ que o público não pudesse assistir num grande ecrã”, afirmou Tim Richards, chefe executivo da Vue.

No entanto, a Netflix continua muito empenhada em levar a estatueta americana para casa. A tecnológica já gastou entre 40 a 50 milhões de dólares na sua campanha para os Óscares, segundo o site The Ankler. Com tanta publicidade investida, “a questão é: Quando é que os votantes vão dizer, ‘estou a ser assaltado?'”, perguntou Rich Licata, especialista em marketing de grandes cerimónias de prémios, ao New York Post.

Ganhe ou não, este já foi um grande passo para a plataforma de streaming e é certo que vivemos um período de transformação na forma como assistimos cinema.

O que representa a nomeação de “Roma”, um original Netflix, para a indústria cinematográfica?

Eu estou convencido de que se o “Roma” ganha – o que eu acho que vai acontecer – muda o paradigma de produção e distribuição de cinema. A Netflix, tendo esse reforço, vai passar a estar presente nos Óscares por direito próprio quase, sem qualquer tipo de constrangimento. Vamos assistir, num curto espaço de tempo, a um mudança radical no modelo de distribuição e produção de cinema porque vamos começar a ter filmes a serem produzidos diretamente para o streaming e outros que são produzidos para vermos em grandes salas, com grandes efeitos, com grandes impactos. Hoje, já temos um mindset preparado para começar a ver cinema com qualidade visual nas plataformas de streaming a partir dos tablets, dos telemóveis e das televisões 4K.

Pegando neste tema tão atual que é o streaming, na sua opinião, o quão relevante são hoje os Óscares?

Nós temos que ver os Óscares como uma celebração e essencialmente como uma evocação da importância que o cinema tem como negócio – hoje já não podemos achar que estes oito filmes são os melhores filmes do ano. Há muitos outros que deveriam estar e não estão. Não nos podemos esquecer que os Óscares foram criados não para celebrar mas para dar credibilidade à indústria. Já tiveram os tempos áureos mas tem vindo a perder alguma força mas não deixa de ser ainda o prémio mais importante de cinema como industria, sem dúvida.

No verão passado, a Academia anunciou uma nova categoria: “Filme Popular”. Um mês depois, voltou a trás. Seria esta uma tentativa falhada de chegar a uma geração mais jovem?

Eu acho que a Academia está numa fase complicada de ver o que isto vai dar. O modelo anda a ser afinado – o próprio modelo de espetáculo de televisão – e ainda não conseguiram resolver o problema. Esse vai à frente e vem a trás, eles na verdade não sabem bem o que querem fazer e isso pode ser determinante no modelo que no futuro a Academia terá.

Nos últimos anos, as emissões dos Óscares tem vindo a perder público. Na sua opinião, qual seria a fórmula de combater isso?

Eles preocupam-se com isso mas não sei se algum dia vão conseguir. O grande problema é que a televisão tradicional está a perder público. Por outro lado, os Óscares como indústria, durante décadas foi um espetáculo – era aquilo que achávamos mais glamoroso, mais espetacular. Com a evolução, temos vários projetos de televisão, como o “The Voice“, que tem tanto ou mais glamour que a cerimonia dos Óscares. Por isso eu não sei se vai conseguir recuperar público jovem porque o público jovem de hoje não vê televisão. Precisa é de arranjar modelos novos de encontrar novos públicos.

Vê aqui as apostas do cinéfilo Mário Augusto para a edição deste ano dos Óscares.

2 comments on ““A Netflix vai passar a estar presente nos Óscares por direito próprio”

  1. Pingback: Hollywood prepara-se para os Óscares entre polémicas, canábis e merchandising – ( The Panorama News )

  2. Pingback: Mário Augusto: “Não acredito que todos os votantes tenham visto o filme ‘Roma’” – ( The Panorama News )

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