Tecnologia

Qual o próximo passo para a fotografia?

Falamos com um fotojornalista português que afirma haver uma revolução “invertida e perversa”, presente no desprezo dado à fotografia nos jornais e revistas, em Portugal.

A fotografia tem sofrido várias mudanças ao longo do tempo: desde uma caixa de madeira às famosas Polaroid. E, agora, numa época em que todos tem uma câmara no bolso, qual será o próximo passo que vai revolucionar o mundo da fotografia?

O jornal britânico The Guardian publicou recentemente uma reportagem acerca de como o significado da fotografia mudou graças às redes sociais e da tecnologia. Sean O’Hagan, o autor do artigo, fala de como a tecnologia progressivamente molda a maneira como vemos e partilhamos o mundo e de como, consequentemente, a fotografia foi transformada.

O The Panorama News falou com o fotografo português João Miguel Rodrigues, repórter fotográfico da Cofina Media e dirigente sindical, que admite ser adepto do Instagram mas afirma que a essência a fotografia não mudou, “continua a ser arte, estética, informação e só as fotografias que captarem o âmago da questão é que vão contar para serem vistas”.

As fotografias e as redes sociais

Em 2012, O’Hagan escreveu uma dissertação sobre a natureza mutável da fotografia numa era, sem precedentes, de sobrecarga de imagem. Desde desse ano, 350 mil fotografias foram postadas no Facebook por dia e 95 mil fotos e vídeos foram partilhados diariamente no Instagram. Combinando as imagens partilhadas em ambas as plataformas, falamos de um número que chega os 290 mil milhões.

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Algumas das preocupações na altura recaíram sobre a veracidade da fotografia e a sua autenticidade. “Será que a tecnologia iria prejudicar a arte da fotografia análoga e, erradamente, a sua veracidade? Será que a mão invisível do Photoshop iria tornar não só o processo, mas a chamada ‘verdade’ da fotografia obsoleta?”

Nos dias de hoje, a combinação câmara do smartphone e as redes sociais são o foco da discussão uma vez que transformaram a imagem cultural. “A fotografia reflete, grava e publicita a nossas vidas online. Será que, através da sua omnipresença, estará a perder a importância numa era de sobrecarga de imagem inimaginável?”, pode-se ler no artigo.

O caso português: uma revolução “invertida e perversa”

João Miguel Rodrigues afirma utilizar o Instagram para mostrar o seu trabalho profissional e pessoal. Sente-se encorajado, mas diz-se consciente do problema grave que vivemos. “Quando o mundo nos oferece novas escolhas temos que as agarrar e primar pela qualidade e coerência, que serão sempre a garantia de um bom trabalho que poderá será visto por milhões de pessoas”.

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As novas plataformas de partilha de imagem são um “mundo novo altamente criativo”, acredita “e obviamente a utilizar”. Afirma que a qualidade trazida pelos profissionais é uma escolha que cabe aos consumidores fazer.

No quadro português, o fotojornalista afirma haver uma revolução “invertida e perversa”, presente no desprezo dado à fotografia nos jornais e revistas. Na arte ainda tem muito valor e é reconhecida, mas não é valorizada no fotojornalismo – profissão que exerce há 20 anos.

“É uma linguagem que tem o apreço do consumidor e é fundamental à compreensão das estórias e da história, e  por isso não entendo como muitas vezes os trabalhos são feitos sem se recorrer à dupla redator/fotógrafo, fotos subtraídas da net sem qualidade alguma, a escolha final das fotografias não passar por um fotógrafo, os editores de fotografia estarem a desaparecer, não haver tempo de preparação para as reportagens e retratos, e tantos, tantos mais exemplos onde esta falta de consideração é provada.”

No entanto, adora a facilidade que os novos meios informáticos trouxeram à fotografia, mas confia que o cérebro humano é único e não é reproduzível informaticamente, tornando impossível substituir uma pessoa. Usou o exemplo de uma notícia reproduzida por tecnologia e chamou-a de um “mero agrupar de classificações”.

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“Quando se quiser perceber o esforço e a glória … ou o fracasso desse atleta, tem que se ler o texto produzido por um humano que viveu o episódio.” E o mesmo acontece com a fotografia.

A evolução da fotografia

A câmara do smartphone já democratizou a fotografia em mais do que uma maneira – colocou maquinaria de alta tecnologia, compacta e relativamente barata e criadora de imagem nas mãos de muitas pessoas. Este processo revolucionou não só a maneira como usamos a fotografia, mas também como vemos e partilhamos o mundo.

Stephen Shore é um fotógrafo influente e experiente, defensor e utilizador do Instagram. Acredita que a plataforma é “uma nova forma de distribuição e um novo meio de comunicação que abre possibilidades que não existiam”.

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Por outro lado, Alec Soth, um fotógrafo documentarista, diz ser mais fã do Tumblr – “porque é mais flexível e aberto”. Vê o Instagram como uma ferramenta criativa que usa para fazer experiências com a sua audiência. “A aplicação dá-me pequenas doses de prazer. Acho que é isso que me faz desgostar dela; a qualidade aditiva dessas doses não satisfaz”.

Caminhamos, declara Sean O’Hagan, para uma época de evolução inesperada; uma época em que em breve os nossos olhos não saberão distinguir o que é verdade e do que é fictício. “Talvez valha a pena olhar para a câmara do smartphone e para as redes sociais da seguinte forma: como é que irão influenciar a geração de criadores de imagem que estão para vir?”

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