Mundo

Mulheres sobre rodas

Nos EUA há um grupo de motards que conduz de saltos altos. Em Portugal, há apenas um que vê a igualdade de género como uma conquista.

Um clube motociclista feminino de Nova Orleães ganhou recentemente a atenção do New York Times: são treze mulheres de descendência africana, chamam-se Caramel Curves e conduzem de stilettos.

“Chamamo-nos de ‘Caramel’ (significado de caramelo) por causa da cor da nossa pele e ‘Curves’ (tradução para curvas) porque para além de sermos curvilíneas apanhamos curvas na estrada” explica ao jornal Nakosha Smith, também conhecida por Coco e uma das fundadoras do grupo.

Estas mulheres juntaram-se inicialmente em julho de 2005, um mês antes do Furacão Katrina ter destruído a cidade. Um ano depois do desastre natural ter ocorrido e de a cidade já começar a voltar ao normal, Coco voltou a juntar as mulheres para guiarem juntas como uma maneira de superarem aquela fase difícil.

Nakosha Smith Foto: Akasha Rabut

“Ser uma ‘Caramel Curve’ significa ser-se mulher e adorar andar de mota” confessa outra das fundadoras do grupo – Shanikka Beatty, mais conhecida por Tru. O grupo tem agora apenas treze membros que dizem partilhar de um desejo de querer estar com mulheres como elas.

A sua aparência transmite a interpretação divertida da feminidade: para além das tradicionais alcunhas, os seus coletes de padrão tropa verde têm o nome do grupo e a frase ‘motorcycle clube’ estampado em rosa. Os emblemas que trazem são brilhantes com lantejoulas e os seus capacetes têm “crinas” rosa florescente. Para completar o visual, usam um par de saltos-altos agulha. As suas motas são grandes Suzuki Hayabusa.

Para se fazer oficialmente parte das ‘Caramel Curves’ pode levar entre 90 dias a um ano. Durante esse tempo, a candidata tem que fazer trabalho comunitário em eventos (como por exemplo angariar fundos para comprar motas à geração mais jovem) e provar o seu talento a guiar motas em passeios pela Florida ou Texas. Têm de completar um percurso de obstáculo em Nova Orleães e, finalmente, ter a sua própria mota. As ‘Caramel Curves’ gastaram entre 6 000 dólares a 22 000 dólares nas suas.

Shanika Beatty Foto: Akasha Rabut

Tru admite que acolheria qualquer mulher, independentemente do seu tom de pele. “Isso faria com que as ‘Curves’ fossem verdadeiramente diversificadas”.

Dezel Bell ou First Lady Foxy tem 50 anos e é o membro mais velho das ‘Curves’. Numa ocasião foi-lhe pedido que despisse o seu colete por conter as inicias ‘MC’. Historicamente, as iniciais significavam ‘Men’s Club’ (clube de homens numa tradução livre) e foi usado durante muito tempo por clubes de motards como um símbolo da sua origem.

A tradução mais correta para os nossos dias é ‘Motorcycle Clube’ (clube de motociclismo, traduzido livremente). Foxy diz ter sido essa a razão para usar o emblema. “Eu estava numa discoteca e um motociclista masculino veio ter comigo e disse-me para tirar o meu colete porque eu não podia ter o emblema.” Quase se envolveram numa luta quando ela se recusou a despir o colete ou ‘cores’, como os motociclistas chamam. “As minhas cores, eu estimo-as. Elas fazem parte de mim”.

Caramel Curves Foto:Akasha Rabut

Michael Strong, conhecido como 9 Milimeter, é um dos membros fundadores dos ‘Saints and Sinners’ – um dos mais antigos clubes de motociclismo de Nova Orleães. Ele reconhece que as ‘Caramel Curves’ não foram bem recebidas por todos. “Elas têm uma grande quantidade de homens intimidados, porque quando elas aparecem, elas dão-te uma lição” disse quando lhe perguntaram em relação ao talento para guiar das ‘Caramel Curves’. “Quando elas apareceram, elas mudaram o jogo”.

O nosso Motoclube Feminino

Há um único grupo de motards feminino em Portugal. Fundando em 2001, o grupo fica em Póvoa de Santarém e tem como presidente Sílvia Vasconcelos Lopes. Ao projeto “40 anos, 40 mulheres” que promove a igualdade de género, diz que o espírito do Motoclube Feminino é diferente do masculino porque não é uma conquista de valor material. “A mulher conquista por ela própria e as coisas aparecem porque nos pertencem”.

Fala da dificuldade que as mulheres têm em se manter no clube porque socialmente têm um lugar e responsabilidades que os homens não têm. “O Motoclube Feminino tem altos e baixos devido a isso. Nos masculinos não se nota tanto porque eles não têm tanta responsabilidade perante os filhos, perante uma casa.”

Sílvia Vasconcelos Lopes, presidente do Motoclube Feminino de Portugal. Foto: Rebeka Dávid

Aponta que o seu colete é uma segunda pele que lhe trouxe “muita, muita, muita, dedicação, esforço, amizade, respeito”. O colete não fala, mas tem muita história para contar, confessa.

Admite que há diferenças físicas entre os homens e as mulheres, mas não se lembra de alguma vez ter ouvido um homem dizer que mota não é para mulheres. “Eles acham estrondoso como é que uma mulher consegue movimentar estas máquinas como eles.”.

Há pessoas que pensam que liderar um grupo de mulheres é difícil por causa do atrito e confusão, mas Sílvia diz que não há nada disso. “Se fosse para andar sozinha, porque é que [o clube] existiria? É esta união que nos faz andar.”

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