Mundo

Shintaro Yokochi: um dos últimos sobreviventes de Hiroshima

Ao The Panorama News, conta como o futuro do mundo depende do passado, afirmando que basta apenas um segundo e nada volta a ser o mesmo.

“Era o único passageiro”. Shintaro Yokochi veio sozinho para Portugal há 60 anos. A cidade de partida? Hiroshima. Aos 9 anos, presenciou o inferno criado pelo rebentamento da primeira bomba atómica e é um dos que sobreviveu para contar o que aconteceu naquele fatídico 6 de agosto de 1945.

Mais de 70 anos depois, são cada vez menos os que podem evocar na primeira pessoa este episódio de terror atómico que, numa fração de segundos, matou cerca de 140 mil pessoas.

Ao The Panorama News, Yokochi conta como uma criança viu e sentiu aquela tragédia e como o futuro do mundo depende do passado.

A bola de fogo

O pequeno Shintaro saiu de casa, foi para a escola primária e ouvia o professor na sala de aula. Parecia ser mais um dia normal. “De repente, entrou pela janela uma luz azul clara, muito mais clara que o dia. Eu corri para a janela para ver o que aconteceu, sem pedir licença ao professor. Só fui eu. Fui instintivamente”.

Os olhos de Shintaro estavam agora no horizonte e o que viu ia mudar para sempre a sua vida. “Em cima do pequeno monte, vi uma bola com uma cor diabólica, que não se consegue explicar: era amarela, laranja e encarnada. Uma bola de fogo”.

Mas como na calma antes da tempestade, não sabia o que estava por vir. “Depois da luz, veio um grande som. Como um trovão. E, a seguir, um grande vento que partiu tudo. Todas as janelas da escola caíram como uma queda de água e eu, com o susto, saltei a janela para o pátio”. Depois só havia uma coisa a fazer: “corri para casa”.

Foto: Joana de Melo

Morava a 12km do sítio onde a bomba “Little Boy” caiu. Sem saber o que ia encontrar, Shintaro ia com o coração nas mãos. A mãe estava em casa e, apesar de estar tudo desarrumado e todas as janelas partidas, a casa estava de pé. Minutos depois, começou a chover. “Era uma chuva negra, com radioatividade” que se misturava com as lágrimas dos habitantes que haviam sobrevivido.

Segundo os seus pais, na baía ao lado de sua casa os pescadores começaram a atirar-se à água mal ouviram o grande barulho. Ninguém sabia o que era. “Diziam que tinha caído um novo tipo de bomba, não sabiam que era uma bomba atómica”.

O encontro entre a vida e a morte

Não demorou muito até que os feridos começassem a chegar à sua cidade. “Todos pensavam que eles traziam a roupa rasgada, mas não. Era a pele pendurada”. A escola primária de Shintaro acabou por se tornar um hospital improvisado e logo se encheu. “Os que entraram não voltaram a sair. Os que estavam muito queimados, morreram no mesmo dia”. Os outros, ao fim do terceiro dia já tinham morrido.

A ajuda para aliviar as dores não era muita pois não se sabia do que se tratava. Não havia medicamentos e o médico escolar era o único, tendo que tratar de mais de 500 pessoas. A mãe de Shintaro foi “fazer de enfermeira, apesar de nunca o ter sido” e ajudar como podia. O seu pai, que pertencia a um grupo de proteção civil, tinha partido para o centro de Hiroshima meia hora depois do bombardeamento. E “eu fiquei em casa sozinho, com medo. Não tinha luz à noite. Sou filho único numa casa grande”.

Foto: Joana de Melo

Passados três dias, foi ao centro de Hiroshima com os seus pais à procura de familiares e conhecidos. A cidade estava destruída. A maior parte dos edifícios já não estavam de pé, restando apenas escombros. Não encontraram ninguém. “Nas ruas só vi cadáveres, arrumados ao lado para serem queimados”.

Uma realidade demasiado forte para uma criança de 9 anos que ainda hoje está muito presente na sua memória. “Vi tanta gente queimada. Vi uma mãe… morta de barriga para baixo a proteger o seu filho pequenino que também estava morto, em baixo”.

Os meses seguintes

Meses depois e a família Yokoshi apresentava sintomas da exposição à radiação. “Perdi cabelo, saía sangue das gengivas e tinha febre alta. Durante meio ano andei moribundo, não saia da cama”. E durante muitos anos Shintaro confessa que se sentiu enfraquecido e demorou muito tempo para que as suas forças voltassem.

O acesso à água e à comida nunca faltou. Como estavam em guerra, já havia o esquema de racionamento e o que sobrava ofereciam a quem precisasse. Um espírito solidário face à adversidade. Mas o perigo da radiação estava sempre presente. “Uma vez, vi um senhor que estava a comer de uma lata de conserva que tinha inchado com o calor. E a minha mãe disse-lhe para não comer que aquilo fazia mal. E eles responderam que não comendo também se morria”.

Foto: Joana de Melo

Entretanto, a escola continuava a funcionar como hospital e a prioridade mantinha-se: ajudar as vítimas. Mas a cidade eventualmente acabou por voltar ao normal (se existir um normal depois desta tragédia) e as casas foram reconstruídas e a escola voltou a servir para o seu fim.

A mudança para Portugal

A cidade de Shintaro era conhecida no Japão pela natação. Todas as crianças sabiam nadar e orgulhavam-se disso. “Como na Grécia, quem não sabe nadar é como quem não sabe ler. É uma cultura”.

E foi a prática desse desporto que fez com que ele viesse para Portugal. Aos 18 anos, Shintaro entrou na Universidade de Waseda, em Tóquio, e foi aí que acabou por participar no seu primeiro campeonato nacional de Inverno do Japão, ganhando nos 100 metros livres.

Poucos anos mais tarde, o Sport Algés e Dafundo pediu à Embaixada do Japão um técnico de natação para treinar a sua equipa e foi assim que, em junho de 1958, chegou a Portugal. Vinha com um contrato provisório de três meses e acabou por ficar 60 anos.

Foto: Joana de Melo

Durante estas seis décadas, Shintaro casou e teve três filhos: Ana, Alexandre e Luísa. O rapaz, acabou por seguir os passos do pai no desporto e chegou a participar na final dos 200 metros bruços nos Jogos Olímpicos de Verão de 1984, nos Estados Unidos da América.

Hoje, Shintaro tem 7 netos e confessa que nenhum deles sabe a sua história. “Mas um dia vou contar. Vou contar para não fazerem guerra. Porque quando há guerra perdem a racionalidade. Para se ganhar, utilizam-se armas e não se pensa nas consequências”.

Trump, Kim e o futuro

Numa época em que a memória para este tipo de acontecimento parece ser escassa, Yokochi faz questão de lembrar que basta apenas um segundo para algo irreversível, temos de saber que “o passado não se pode mudar”. Com armas cada vez mais mortíferas, “a próxima guerra é o fim dos humanos. Fim dos animais. Fim dos seres vivos”.

Foto: Joana de Melo

Quando o questionamos sobre o caso de Donald Trump com a Coreia do Norte e o possível recurso a estas armas, Shintaro não hesitou em dizer: “É só garganta. Se ele pensasse nisso de verdade, era louco. Só os loucos é que conseguem fazer isso”. E acrescentou: “O Trump nunca pensa que aquilo é uma lição. Ou o Kim. O Kim tem mil línguas, o Trump tem quinhentas (risos)”.

Aproximava-se o final da entrevista quando a última questão se impunha: consegue perdoar as pessoas por trás do lançamento das bombas? Depois de uma pausa e muito hesitante, como se voltasse a ser aquela criança sentada naquela sala de aula, respondeu: “É difícil de dizer… racionalmente, tenho que perdoar. Todos cometem erros. Mas aquele erro é muito grande. Portanto… No fundo, no fundo… não consigo perdoar. Penso em todos os mortos desta bomba… É muito difícil de perdoar”.

7 comments on “Shintaro Yokochi: um dos últimos sobreviventes de Hiroshima

  1. maria de jesus maia

    Muito obrigada por este magnifico testemunho! Assim, os homens apendam a construir a Paz!

  2. Infelizmente os responsáveis por este crime eterno ainda estão destruindo outros povos

  3. Muito obrigada por este testemunho! Esta historia tem de ser contada. Steve, colega da natação do Shintaro na piscina do Jamor.

  4. Manuel Carlos Cardoso

    Um grande homem acima de tudo.Um grande Treinador.Um grande Amigo que fez de mim e de todos os Colegas do SAD os Amigos e a Amizade que perdura desde altura em que o
    Dr.Shintaro Yokochi,chegou a Portugaljá lá vão 60 Anos.O meu bem haja e este grande ser humano.

  5. Caro Sr Yokochi. Tem de falar mais sobre isso pois a memória da humanidade é tão curta e sim infelizmente haverá sempre loucos como Trump e Kim é um dia não fica só pelas palavras e será bem pior que há 70 anos!! Escreva e partilhe c todos nós crianças deste planeta!!

  6. Maria Teresa Lança

    É um testemunho impressionante! Deve contá-lo. Apesar de muito ter lido sobre o assunto “tenho 80 Anos” é diferente ouvir o relato de uma pessoa que viveu essa tragediai. Ia loco .Obrigada

  7. Graça Maia

    Shintaro Yokoshi meu treinador meu grande amigo. Um testemunho real e vivo do horror da guerra. Obrigado mister Grande Professor…

    Graça Maia

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