Cinema Cultura Entrevista

Francisco Cipriano: “Senti que a vida pode ser um grande balão de felicidade”

Ao The Panorama News, explica como o documentário “Movement” o levou a descobrir um Portugal com vidas extraordinárias e felizes.

Uma aventura cheia de adrenalina, beleza e inspiração. É assim que se pode descrever o “Movement – Uma Viajem por Vidas Criativas”, um filme narrativo sobre as pessoas e a diversidade de Portugal.

Durante o documentário, somos guiados por Francisco Cipriano que nos apresenta pessoas únicas com vidas extraordinárias, como um produtor de sal tradicional, um construtor de barcos, um guia turístico e um alpinista profissional.

Ao The Panorama News, reflete sobre como esta experiência o afetou, desvenda como este documentário “absolutamente independente” ganhou vida e confessa que “não tinha a percepção do que estava a acontecer, do que ia acontecer”.

Como surgiu o convite para a sua participação neste projeto?

Eu tenho uma casa na praia da Consolação, perto de Peniche, e houve um dia em que encontrei lá uma pessoa que já conhecia, o Tobias Ilsanker, que é fotógrafo e videomaker. Ele estava a filmar um surfista brasileiro e quando terminou as filmagens veio ter comigo e disse-me: ‘fui desafiado para fazer um projeto e acho que tu és a pessoa certa para incluir porque és português, tens maturidade, és uma pessoa que conhece muita gente, já passaste por uma experiência criativa, que foi fazer o livro do surf, e se calhar fazia sentido seres tu o host deste projeto’. Eu confesso que na altura, disse que sim mas que não tinha a percepção do que estava a acontecer, do que ia acontecer.

Como foi o processo de seleção das pessoas que participam no filme?

As pessoas foram escolhidas entre todos. Entre mim, o Tobias, o Philip Zylla e o Richard De Witt. As pessoas tinham que ter algumas características especiais: desde as mais simples (falar bem inglês que, desde logo, é uma limitação para algumas personagens) ao ter uma história para contar.

Foto: Joana de Melo

Porquê é que sentiram que o documentário tinha que ser falado em língua inglesa?

É uma excelente pergunta mas não tenho uma resposta óbvia. Eu acho que surgiu naturalmente por toda a envolvência do filme. Para já porque cada um de nós é de um país diferente – eu sou português, o Tobias e o Philip são alemães, e o Richard é holandês. Portanto, para comunicarmos entre nós, tínhamos que encontrar um denominador comum – claramente foi a língua inglesa. E depois porque sempre houve a ambição de o projeto não ser só para Portugal, ser um projeto internacional. Foi assim também que ele nasceu: o nosso principal parceiro é a Mini BMW, uma marca alemã, o segundo parceiro é uma marca de câmaras de filmar, a Dji, e também a NorthFace, ou seja, estávamos já num patamar completamente internacional.

Já há algum tempo que tem um blog sobre viagens e fotografia. Sempre foram temáticas que o cativaram?

Sim, eu sou um viajante apaixonado e sobretudo interesso-me por pessoas e por lugares. Eu sou geógrafo de profissão e acho que vem um bocadinho daí o facto de ter esta relação com o mundo e com o território. E depois a fotografia é apenas um meio de registar, tal como contar as histórias. É difícil dividirmos a nossa vida em fatias, mas acho que essa fatia da imagem, das viagens, da escrita, de contar histórias é muito marcante em mim.

Este é um trabalho independente. Como funcionou o financiamento?

É absolutamente independente. Nós tínhamos liberdade para fazermos tudo o que queríamos, da forma como queríamos. É claro que nada se faz sem dinheiro, sem financiamento, e portanto ter um parceiro como a Mini, que logo mandou um carro para Portugal e nos ajudou financeiramente no projeto, e o facto de também termos as câmaras de filmar foi fundamental. Numa fase final, tentamos encontrar parceiros portugueses – já tínhamos coisas para mostrar – e felizmente tivemos a TAP. Infelizmente, não tivemos a ajuda do Turismo de Portugal por uma questão de timing, mas estão muito sensibilizados para o projeto.

Foto: Joana de Melo

Este não é um documentário sobre monumentos, certo?

Não. Este é um documentário sobre pessoas. Pessoas com vidas extraordinárias e que fizeram opções arriscadas. Pessoas que têm muita coragem, muita determinação e que conseguem levar a vida com paixão da forma que eles acham que devem levar. Não são opções extremas, são apenas diferentes e que estão assentes em muita coragem.

Diria que descobrir Portugal é descobrir experiências de vida?

Sim. Eu próprio, que sou português e tenho quase 50 anos, vi sítios e conheci pessoas que não achava que era possível ter no nosso país. Não me ocorria que voar por cima do estuário do Sado pudesse ser uma coisa tão espetacular e que pudéssemos ver bandos de flamingos, e que pudéssemos ter sítios como aqueles que acabei por descobri no projeto. Acho que, sendo português, é incrível aquilo que ainda conseguimos descobrir no nosso país. E depois a questão humana, as histórias. E é um bom sentimento, ver que isso acontece tudo num país que é o nosso.

Todas as pessoas no documentário têm uma ligação muito próxima com a natureza. Acredita que esta ligação contribui para uma determinada forma de viver a vida?

Absolutamente. Aliás, essa é uma das mensagens fortes do “Movement“. É assentar numa lógica de vida simples – não sendo básica – muito ligada à natureza, muito ligada ao que são as raízes de Portugal. E muito ligada a esta lógica de preservar, de deixar para as gerações futuras, aquilo que é um legado que nós também encontramos. Contribuir para perseverar e não contribuir para destruir.

A felicidade é um dos temas centrais do filme. Concordaria ao afirmarmos que ele não é apresentada como um fim a atingir mas como uma postura de vida?

Sim, penso que todos os personagens passam uma mensagem de extrema felicidade. Eu próprio, ao ter passado pelo filme, também senti isso. Senti que no fundo a vida pode ser um grande balão de felicidade. Mas não quer dizer que os nossos personagens não tenham medos, falhanços, receios ou fracassos. Foi este conjunto de elementos que os levaram a um nível de felicidade. Foi incrível como abriram a vida deles para nós e como é que foram tão transparentes e como nos possibilitaram fazer um trabalho tão abrangente.

Foto: Joana de Melo

A ideia que o filme passa é que foi tudo muito espontâneo…

Sim, tudo aquilo aconteceu com genuinidade. Isto é mesmo um documentário, não há ensaios, não há guiões. No fundo, o que nos propúnhamos fazer é pedir às pessoas para viver com elas, um pedaço de tempo, e mergulhar na vida delas. E daí tirar uma história.

O que aprendeu com este documentário?

Eu aprendi muito com este documentário porque passei por muitas experiências. E eu sou uma pessoa que vive com dúvidas muito simples: onde eu gostava de viver? No campo ou na cidade? O que eu gostava de fazer? Um trabalho mais burocrático ou um trabalho mais criativo? As dúvidas podem, ou não, remeter-nos à felicidade. São muitas mas quando as começamos a resolver, começas a caminhar para a felicidade. E o documentário ajudou-me nisso. Ajudou-me a perceber que a vida não tem que ser nem preta nem branca, pode ser um mix das duas. Voltando à questão do campo e da cidade, eu hoje percebi que não consigo viver nem num, nem noutro. Preciso dos dois.

O documentário estreia a 25 de agosto, no Cinema São Jorge, em Lisboa. Haverá outras exibições?

O filme vai ter outras exibições em outras cidades de Portugal, ao longo do ano. A partir de agora, vai começar a correr os festivais de cinema documental pelo mundo. Já temos algumas confirmações, como o Festival de Cinema de Nevada (EUA), a Nomad, no Porto, e o SAL, em novembro, em Lisboa. Eventualmente gostaríamos fazer algumas exibições internacional deste tipo, como em Munique e em Londres. Outra coisa relevante é que os filmes vão estar disponíveis nos aviões da TAP.

Uma boa forma para os turistas descobrirem Portugal. 

Exatamente. E para ficarem com vontade de ver mais partes de Portugal. O filme é um excelente cartão de visita do nosso país, as imagens são absolutamente fabulosas.

0 comments on “Francisco Cipriano: “Senti que a vida pode ser um grande balão de felicidade”

Deixe uma Resposta

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão /  Alterar )

Google photo

Está a comentar usando a sua conta Google Terminar Sessão /  Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão /  Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão /  Alterar )

Connecting to %s