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A verdade de Mariza: “Não sou uma artista falsa”

Ao The Panorama News a fadista diz que apenas canta o que quer, a sua verdade. O contrário seria "falso" e "eu não sou uma artista falsa".

A cantora mais internacional de Portugal conta ao The Panorama News que apenas canta o que quer. As letras das suas músicas são um veículo da sua vida, da sua verdade. O contrário seria “falso” e “eu não sou uma artista falsa”.

Já vendeu milhões de discos e levou o fado e a nossa língua mais longe. O Festival da Canção, o álbum homónimo e a responsabilidade do que vai fazer a seguir foram alguns dos temas que não ficaram de fora de uma entrevista genuína, verdadeira.

No mês passado realizou-se o vigésimo aniversário do Pacto de Amizade e Cooperação entre Lisboa e Paris. Como se sente como uma representante da cultura portuguesa?

Para mim é um orgulho poder ter a oportunidade de representar o meu país com a música que faço. Foi para mim um momento muito muito dignificante. Fiquei muito sensibilizada com o convite e foi muito interessante perceber que o público era muito ecléctico: não havia só portugueses mas também franceses que já começam a querer conhecer um bocadinho mais a cultura portuguesa. E sentem que o fado, ou a música que eu faço, é uma música que abrange todo o tipo de ser humano, todo o tipo de nacionalidade, não tendo só propriamente de pertencer a um canto do mundo.

Como fadista, como é encontrar o fado tão bem recebido fora de Portugal?

Eu sou uma artista muito mimada porque desde o princípio que isso me acontece (risos). E para mim já começa a ser um hábito, o estar nos quatro cantos do mundo e poder cantar em português. Obviamente que com os anos (são quase 20 anos de percurso) vou fazendo uma música que me demonstre melhor, que já tem uma personalidade muito própria, um fado muito próprio – tem as raízes do fado mas cada vez se torna mais particular. E é fantástico perceber que as pessoas já vão a um concerto não por ser fado mas pelo meu nome e isso também é um motivo de grande orgulho. E é muito bom perceber que se consegue cantar em português mostrando uma personalidade, mostrando uma música que tem haver com a história de um povo e de um país.

A Mariza já vendeu mais de 1 milhão de discos…

Muito mais! (risos) Já vamos em 2 milhões e meio (risos).

Como é que se sente ao pensar nesses números?

Não penso nisso. Nem sequer é uma coisa que faz parte do meu dia-a-dia, do meu pensamento ou de quando vou para um concerto ou quando estou em estúdio. É algo que faz parte da minha história… um dia quando quiserem falar sobre mim, se lembrarem de falar sobre mim, mas não faz parte do meu dia-a-dia. Agora que falou lembrei-me mas não é uma coisa que me costume lembrar, eu não sou assim. Não faz parte da minha forma de estar. Mas é super gratificante sabermos que há pessoas que gostam da música que eu faço e que já vendemos esse número fabuloso para um artista português.

Quando entra em estúdio, pensa na responsabilidade do que vai fazer a seguir?

Não… Fazer um disco é um ato muito egoísta. Eu quando faço um disco não estou à espera do que as pessoas vão pensar, ou se vão gostar. Eu canto aquilo que é a minha verdade, o que eu gosto. Tanto é que a editora nem sequer entra no estúdio enquanto eu lá estou – há artistas em que as editoras vão estúdio ouvir e vai dar opinião e comigo isso não funciona. Ninguém entra. Eu estou em estúdio com o produtor, com os músicos, a trabalhar direto naquilo que eu escolhi. Naquilo que durante um ano eu andei a recolher, aquilo que gostava de cantar, aquilo que me sinto bem a cantar, o que me reflete na altura, aquilo que é a minha verdade. Porque se for ao contrário, é falso. E eu não sou uma artista falsa – as pessoas às vezes tem ideia que eu sou distante, que eu sou fria… talvez o seja no dia-a-dia como uma questão de preservar um pouco a minha intimidade, mas no palco eu sou extremamente verdadeira e só canto aquilo que sinto. Se não sentir, não canto.

O seu novo álbum, “Mariza”, foi lançado em maio e pela primeira vez tem uma canção da sua autoria, a “Oração”. O que a levou a dar esse passo?

Foi por engano que apareceu (risos). Não era para fazer parte do disco. Foi no meio de uns poemas e acabou por ser musicado. Mas não era essa a intenção. Quando vou fazer um disco faço sempre das palavras dos outros um veículo das minhas emoções porque acho que já há uma exposição tão grande que se for cantar músicas minhas, onde é que eu me posso esconder? Aqui aconteceu e quando me dei conta o produtor já tinha a música e não houve como voltar a trás. Não sei se é um processo para se repetir, é a primeira vez… Mas está aí (risos).

Mesmo que não acabem na versão final do álbum, a Mariza costuma escrever outras canções?

Escrevo muito. Guardo para mim, já houve cadernos que foram fora… são poemas e prosas que me vem à cabeça, que vou escrevendo.

Este ano atuou na final do Festival da Canção. No ano passado Portugal saiu vitorioso, acha que a canção “Amar Pelos Dois” trouxe uma maior visibilidade à musica portuguesa pelo mundo? 

Eu espero bem que sim! O Festival é uma grande montra, é uma janela para o mundo. Eu lembro-me que em miúda ficava colada à televisão a ver a Eurovisão e o Festival da Canção em Portugal. Fiquei super orgulhosa, primeiro por termos ganho e com uma música tão bonita e tão bem cantada e depois porque foi feito aqui em Portugal e foi lindo. Já estávamos à espera há tanto tempo e eu poder ter a oportunidade de participar passado tantos anos, fazer parte dessa festa tão fantástica… amei. Foi um momento de glória, um momento muito muito bonito.

Tem alguma canção favorita das 54 edições do Festival? 

Não, por acaso não tenho (risos). Na altura em Portugal só existiam dois canais, era a RTP1 e a RTP2. E a televisão chegava às onze da noite e acabava, não havia mais nada. E o Festival da Canção era algo que prendia o país inteiro. Portanto existe uma memória muito grande, de grandes vozes como a Simone de Oliveira, o Paulo de Carvalho, o Carlos do Carmo, o Fernando Tordo, as Doce e muitas outras vozes que participaram nesse Festival tentando sempre trazer o melhor para Portugal. E desta vez conseguimos com uma música tão bonita, tão bem cantada pelo Salvador Sobral. Foi um momento único, de tantos anos de espera e depois fazer a festa aqui no nosso país… foi maravilhoso, foi mesmo a cereja no topo do bolo. Um momento magnífico.

O que podemos esperar da Mariza no futuro?

Este ano ainda há muitos concertos pata fazer, o próximo ano também está praticamente encerrado com concertos. Em 2019 vou estar a preparar, muito vagarosamente, e a tentar perceber os próximos passos que possa dar num próximo disco. Vou ouvir músicas – todos os dias me chegam autores e compositores novos. Mas para já é muito cedo, este disco ainda é muito bébézinho.

Tem algum artista ou compositor que ainda não tenha colaborado e o deseje fazer?

Eu não sei trabalhar assim. O engraçado disto tudo é que como o que eu canto tem que ser muito verídico, tem que ser a minha verdade, antes de cantar com alguém tenho que conhecer essa pessoa para perceber se nos damos bem, se um dueto resultaria… porque senão seria uma coisa falsa, feita em cima do joelho, de um pedido de alguém. E isso assim não funciona.

Portanto seria primeiro um café e depois o estúdio.

(Risos) Ou um copo de vinho (risos).

1 comment on “A verdade de Mariza: “Não sou uma artista falsa”

  1. Pingback: Mariza e Sara Tavares nomeadas para prémios Grammy Latino – ( The Panorama News )

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