Entrevista País

“Não há História no feminino”

Alberta Marques Fernandes conta ao The Panorama News que se considera uma feminista "enquanto houver necessidade de o ser".

As mulheres portuguesas viram legitimado há 100 anos o acesso a “várias funções públicas” tradicionalmente exercidas por homens – através de um decreto promulgado por Sidónio Pais, datado de 19 de julho de 1918.

Conhecida pelo seu profissionalismo, Alberta Marques Fernandes conta ao The Panorama News que se considera uma feminista “enquanto houver necessidade de o ser”. Defensora das minorias, a jornalista da RTP diz-nos ser “uma lutadora pela igualdade de oportunidades para toda a gente”.

Faz 100 anos que as mulheres portuguesas viram legitimado o acesso a várias funções públicas na sociedade. Na sua opinião, ainda existe alguma função em que a mulher não conseguiu conquistar o seu espaço e reconhecimento?

Não há nenhuma mulher CEO no PSI20. As grandes empresas ainda são um reduto de homens – os homens perpetuam-se no poder. Por acaso agora, com a Cláudia Azevedo – a filha do Belmiro de Azevedo – não sei se não passará a haver… Mas tirando isso, a verdade é que o mundo empresarial é um mundo de homens. A política também. Se não fossem as leis das cotas, nem 30% de mulheres lá tínhamos. Portanto eu acho que ainda há muita coisa a fazer.

Escreveu dois livros com a mulher sempre em foco: “As Primeiras Damas da Democracia” (2011) e as “Mulheres na Política” (2017). Como surgiu este interesse pelo tema da mulher?

Interessa-me o tema da mulher na medida em que uma pessoa acaba por chegar à conclusão que não há História no feminino. Estava a ouvir o Barack Obama a fazer referências a grandes homens da humanidade, a propósito do centenário de Nelson Mandela, e ele falou no Gandhi, no Lincoln… então na História da humanidade não há mulheres? Porquê? Porque a História sempre foi feita no masculino: os homens é que mandam, os homens é que a escrevem. Não há no feminino e há muitas mulheres importantes e fortes ao longo da história.  E por isso achei interessante fazer a biografia das primeiras damas que acaba por ser, também, um olhar através do Palácio de Belém sobre Portugal pós 25 de abril. E estas biografadas [do segundo livro] são mulheres que estão num momento de viragem: pela primeira vez, há duas dirigentes partidárias (Bloco de Esquerda e CDS) e entram em domínios que são masculinos. Antigamente havia poucas mulheres no Parlamento e, as poucas que havia, falavam da mulher, do dia da criança, dos cuidados básicos de saúde… não entravam nos assuntos ditos de homem – economia, finanças, internacional. Hoje em dia, dão cartas nessas áreas – nomeadamente a Mariana Mortágua e a Cecília Meireles que ficaram famosas na comissão de inquérito ao caso BES.

O que mais a surpreendeu nessas mulheres que pesquisou?

Não me surpreendi. Eu fui de mente aberta e sei sempre que as pessoas não são aquilo que aparentam. Eu prefiro ir sempre sem preconceitos, ou tentar ir com o menor número de preconceitos possível, e ser surpreendida. Nesse sentido, todas me surpreenderam e todas mostraram um bocadinho mais do que eram.

Para além do tema da mulher, outro que está sempre presente nas suas publicações é a política. No atual cenário político português, acredita ser possível vermos uma mulher na Presidência da República?  

Claro! Cada vez mais. E uma primeira-ministra também, cada vez mais. Eu acho que esta nova geração está a demonstrar claramente que estamos num ponto de viragem.

Foi o primeiro rosto da televisão privada em Portugal ao abrir as emissões da SIC, em 1992. Como recorda esse momento? 

Como um momento de uma enorme irresponsabilidade porque não tinha nenhuma noção que iria ser recordada para a história no meu primeiro dia de trabalho (risos). Estava super feliz pelo facto de estar rodeada de tipos que eu admirava, como o Paulo Camacho, o Rodrigo Guedes de Carvalho, a Cândida Pinto e o José Alberto Carvalho.

Tem uma filha com 17 anos. Pensando nela e em todas as jovens mulheres da mesma geração que ela, que testemunho gostaria de lhes deixar?

Tento dar à minha filha o exemplo todos os dias de quem eu sou. E ela também pensa pela cabeça dela e tenho imenso orgulho da forma como ela pensa. Pensa o mesmo que eu, graças a Deus. Não anda muito longe da ideia de que ainda é preciso conquistar mais igualdade em termos salariais, em termos de não fazer sentido falar se é homem se é mulher, é tudo igual. Igual. O que é importante é chegarmos a esse momento em que é igual. E ainda falta um bocadinho.

Considera-se uma feminista?

Sim. Enquanto houver necessidade de o ser. Mas sou uma feminista como sou uma lutadora pela igualdade de oportunidades para toda a gente.

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