Entrevista Mundo

“Agora é a nossa vez de fazermos a diferença”

No centenário de Nelson Mandela, o jornalista português que mais o entrevistou conta-nos a sua experiência e que "tem muita saudade dele".

Nelson Mandela é um dos grandes heróis dos nossos tempos. O legado que nos deixou é imensurável e parte dele foi testemunhado de perto pelo jornalista António Mateus. Após a libertação de Mandela, em 1990, foi destacado para a África do Sul como delegado da agência Lusa, onde permaneceu dez anos.

Vivenciou os principais momentos do fim do apartheid e de reconciliação da África do Sul. Foi o jornalista português que mais o entrevistou e desse contacto pessoal e experiências directas resultaram dois livros: “Mandela: A Construção de um Homem” (2012) e “Mandela: O Rebelde Exemplar” (2013).

No centenário do nascimento do Nobel da Paz, recorda-o com “muita saudade” e tem como missão “contaminar a sociedade” com a sua mensagem de harmonia, humildade e esperança.

Viveste 14 anos em África, 4 em Moçambique como chefe da agência Lusa e 10 na África do Sul como jornalista correspondente. Que expectativas tinhas antes de embarcar nesta aventura?

Quando cheguei a a Maputo em 1986, foi logo a seguir à morte de Samora Machel, o então presidente Moçambicano, e o país estava de joelhos. Para mim, na altura com 26 anos, jovem, foi muito duro. Duro sobre o ponto de vista humano e duro profissionalmente. Do aspeto humano porque o país estava quase privado de qualquer fonte de interesse cultural, intelectual – não havia cinema, a televisão transmitia duas ou três horas por dia.

António Mateus (à direita) e Michel Bole Richard, jornalista do “Le Monde”, na República do Congo. Conversações entre cubanos, angolanos e sul-africanos, cruciais para o fim do apartheid, em Maio 1988.

E foi fácil fazer reportagem jornalística?

Não. Esse é o lado profissional que também foi muito difícil porque naquela altura, as pessoas hoje em dia não tem noção disso, os sistemas mono-partidários tendiam facilmente a escorregar para serem a verdade única, ou presumirem-se assim. E nos países que saíram de regimes coloniais, os partidos que governavam esses países confundiam muito a propaganda e a informação. Os jornalistas eram vistos como tendo uma “missão patriótica” de lealdade ao partido no poder e qualquer crítica, ou qualquer coisa que não abonasse ao governo, era vista como uma traição.

Como foi a primeira vez que privaste com Nelson Mandela?

Isso já foi uns bons anos mais tarde, em 1990, depois de eu ter assumido a chefia da Lusa, que não tinha delegação até então, na África do Sul. Fui entrevistá-lo naquilo que era a Shell House, a sede do ANC. Ele tinha sido libertado poucas semanas antes e estava a começar a dar sucessivas entrevistas aos chefes de delegação de órgãos internacionais e foi a minha estreia com ele.

Nelson Mandela visita local do massacre de Boipatong, a 17 Junho 1992. Foto: António Mateus

Já entrevistaste imensas pessoas ligadas a ele durante a tua carreira. Na tua opinião, porque é que ele tocou tantas pessoas?

A maior parte das pessoas conhece as coisas que são mais superficiais, como tudo no mundo. Aquelas que são mais vistosas, mais mediáticas. E o Mandela era extraordinário, não pelo perdão daqueles que o oprimiram, não por reter retaliado o sofrimento que teve – indiscutível. Para mim a coisa mais extraordinária do Mandela, e que eu guardo para o resto dos meus dias, é o sentido da importância da dignidade. Da dignidade dos outros, não da nossa, dos outros. E Mandela o que o tornava muito especial era que ele continuamente elevava as pessoas à volta dele, fosse o guarda noturno, o cozinheiro, a secretária dele, qualquer ser humano que ele visse com o seu olhar que estava a sentir-se mal por qualquer motivo, ele interrompia o que estava a fazer e tentava intervir sobre a situação com um carinho enorme. Era um carinho que ele tinha… Aliás, ele é muito criticado por pessoas mais próximas linearmente que diziam que ele prestava mais atenção a estranhos do que aos seus. Ele preocupou-se mais em serenar os medos dos brancos do que em alimentar as expectativas dos negros, que agora era a vez deles. E isso é uma qualidade humana muito rara de encontrarmos hoje em dia nas nossas profissões, nos nossos locais de trabalho, nos nossos chefes. Quase ninguém liga à dignidade dos outros. As pessoas estão mais preocupadas com o seu próprio umbigo e se puderem meter-se às cavalitas da pessoa ao lado fazem-no, sem pestanejar.

Mandela e Frederik de Klerk tinham acabado de aprovar a data das primeiras eleições multirraciais na África do Sul, em 1994. Foto: António Mateus

Achas que o mundo reconhece na sua plenitude a importância que Mandela teve?

Eu acho que as pessoas conhecem-no e reconhecem-no como um farol incontornável dos melhores valores que nós gostaríamos de ter num líder politico, num diretor de uma empresa, nas pessoas que andam à nossa volta. Mas há os tais valores da dignidade de nós cuidarmos dos mais frágeis à nossa volta e isso é a nossa missão, dos que mais privámos com ele, pegar nela e contaminarmos todos à nossa volta. Este semana estamos a celebrar a nível mundial o centenário de nascimento de Mandela e a promover uma série de iniciativas exatamente para contaminar a sociedade à nossa volta com um princípio muito simples que é: agora é a nossa vez de fazermos a diferença. Porque ele também a fez e se ele conseguiu mudar milhões quem somos nós para não acreditar nisso.

Uma vez Mandela disse: “Nós podemos mudar o mundo e torná-lo um lugar melhor. Está nas suas mãos fazer a diferença”. Achas que os jovens portugueses fazem o necessário para ter um país melhor?

Eu tenho muito medo da generalização porque ela nunca é rigorosa. Essa é outra das lições maravilhosas de Mandela que é: nós perdemos muito tempo a ver as nódoas nas camisolas dos outros e passamos menos tempo a lavar as nódoas da nossa própria camisola. E se nós nos ocuparmos mais em sermos melhores, cada um de nós, com humildade, com integridade, o mundo fica muito melhor.

António Mateus durante reportagem em Joanesburgo, um dia após o massacre de Shell House e Library Gardens, em 1994. Foto: Alistair Lyne

Qual a melhor forma de honrar Mandela no seu centenário?

Eu acho que é merecer ter estado na vida dele. Há uma coisa que se chama liderança servidora que é estar no poder elevando os outros. É usar o poder para elevar os outros. E essa é uma coisa que eu me lembro sempre de praticar e cada vez que envelheço mais percebo e mais admiro as pessoas que não se metem em bicos dos pés. Menos gasto do meu tempo a olhar para pessoas que falam de si próprias ou que querem aparecer à frente do ecrã, antes pelo contrário.

O que representa hoje Mandela para ti?

Representa um amor enorme. Representa uma saudade enorme. Tenho muita saudade dele. E representa um desafio que é eu tentar merecer ter estado 10 anos na luz dele.

1 comment on ““Agora é a nossa vez de fazermos a diferença”

  1. Pingback: Beyoncé escreve carta aberta para Nelson Mandela – ( The Panorama News )

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